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Um relato pré-existência do Hemoam


Um dos fundadores da instituição relata sobre uma época pré-criação do Hemoam.


PUBLICADO DIA: 20/08/2020 12:57:53 Última atualização: 22/09/2020 23:39:28 Legenda: Dr. Nelson Fraiji
Créditos: Ascom

Hoje, estamos comemorando os 38 anos de existência do Hemoam, entretanto a sua “vida” começa no ano de 1977, cinco anos antes, tempo em que retornei a Manaus após concluir minha residência médica em Hematologia no Hospital dos Servidores , no Rio de Janeiro.

Naquela época os poucos bancos de sangue que realizavam uma hemoterapia segura, estavam instalados em grandes hospitais públicos e particularmente nos grandes centros urbanos.

Nestes bancos de sangue, os doadores eram submetidos a triagem clínica e o sangue era analisado para o controle de hepatite B e sífilis.  Contudo fora destes hospitais a atividade hemoterápica era um comercio da vida onde os doadores eram remunerados por cada doação e em geral os principais candidatos eram alcoólatras e viciados. A situação era tão crítica que algumas vezes se recolhiam doadores alcoólatras que apresentavam anemia aguda dado terem doado sangue em mais de um banco de sangue em troca de dinheiro para alimentar a sua dependência.  A falta de controle sobre esta atividade levou muitos doentes que receberam transfusão a serem contaminados por hepatite, doença de Chagas, malária, etc..

Na década de 70 estávamos em plena ditadura militar e eram poucos os que se atreviam a denunciar estes crimes. A hemoterapia brasileira era um desastre sanitário. O Plasma humano, base para a fabricação dos medicamentos para os hemofílicos tinha um valor tão alto que motivava contraventores do jogo do Bicho a instalarem sítios de coleta de sangue para separar o plasma e contrabandear para o estrangeiro. Os EUA era o grande comprador de plasma humano de toda a América Latina.

 

Foi no ano de 1976, em meio a este caos na hemoterapia que soube da existência de um serviço em Pernambuco que organizou a assistência hemoterápica naquele estado centrado em novos valores éticos e técnicos.

Logo que cheguei em Manaus, no ano seguinte, fui chamado por um neurocirurgião para opinar sobre o caso de uma criança que caíra de uma rede no Acre e que desenvolveu um grande hematoma cerebral e que já tinha sido submetido a uma craniectomia naquele estado. Apesar daquele procedimento, o hematoma voltou e por isso teria sido transferido para Manaus, onde foi submetido a uma segunda craniectomia para retirada do sangue, mas que o hematoma, mais uma vez se refez. A criança, internada no Hospital da Santa Casa, estava grave e com discreto sangramento no local de uma injeção intramuscular.  Sugeri que a criança era portadora de Hemofilia e que não tínhamos medicação para parar o sangramento. Mesmo assim o neurocirurgião teve que realizar uma nova craniectomia e nesta ocasião doei sangue para viabilizar um mínimo de fator anti-hemofílico, auxiliei a cirurgia e ao final dela doei novamente sangue total e em seguida transportei a criança para Recife, na esperança de salvar a criança. Chegamos em Recife no sábado às 10 horas e lá conheci o Dr Luiz Gonzaga dos Santos, fundador do Hemope. Lembro que ele estava com o todo o staff daquele serviço em reunião de trabalho. Lamentavelmente a criança faleceu alguns dias depois.

Foi quando conheci o Hemope que se materializou o que seria minha proposta de organização da hemoterapia no Amazonas.

O drama desta criança hemofílica era a expressão viva do drama de todas os hemofílicos do nosso estado e, também, de outras regiões do Brasil. Estes pacientes não recebiam diagnóstico e nem tratamento adequado e por isso morriam precocemente devido a sangramentos ininterruptos.

 

Foi para dar solução da este tipo de problema que o Hemoam foi criado. Nestes 38 anos de existência, muitos relatos de superação, conquista e dedicação estão registrado nas mentes e corações de tantos que contribuíram para a consolidação deste importante serviço de assistência.

Nelson Fraiji, agosto de 2020.

 






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